A fechadura era a angústia.
João Augusto não teve opção. Abriu, entrou lentamente, era domingo. O sol sangrava no céu e ventavam espadas. A
sala era grande, estranhamente mobiliada. Por um momento pensou se seria
possível voltar os passos, talvez ainda carregasse consigo o livre arbítrio. Não teve forças.
Dois dias antes, João
Augusto acreditava em Deus, era devoto de são Pedro, nunca negara um favor ao
próximo. Agora, sangue nos olhos, coração evaporando, lâminas nos dedos. Ninguém
na sala. Era preciso esperar, pensou. Se fosse necessário, dias, meses. O ódio
vinha em ondas, altas, violentas. Se existe Deus, deve achar graça em desenhar
a desventura.
Alguns minutos, o vazio, o
corpo cansado ao chão. Somente a alma andava pela sala revistando cada canto.
João Augusto olhava, queria chama-la, mas, como? O que dizer? O tempo apagou
alguns instantes.
A lua cheia pela fresta da
janela, já não enxergava a alma. Talvez tivesse voltado em silencio. Estranho.
O pouco que o astro iluminava, era um velho quadro na parede. O tempo apagou
mais alguns instantes, mas ainda era noite. João Augusto acordara, tentou sentir
a alma em seu corpo. O coração já não evaporava com tanta pressa, agora era um
riacho mais calmo. Ouviu passos.
A porta abria lentamente.
Era preciso reagir. O destino que o levara até ali, agora parecia mais
distante. A luz acesa. A lua desaparece. Olhos nos olhos, a alma estava dentro
do corpo.
Quem é você? Sou o silêncio.
Como? Silêncio.
Os olhos azuis, infantis,
cabelos negros, a pele clara, era pequeno. A voz tão doce.
Agora João Augusto estava possesso
por um pranto convulsivo. A alma lhe pesava toneladas, o silêncio permaneceu
imóvel. Parecia conhecer aquele instante.
Afinal, toda vingança
parecia inútil. A vida era inútil. O silêncio observava.
João Augusto, um pouco
refeito, lavava as mãos. Lâminas finas desciam pelo ralo. Voltou à sala. O
silêncio. João Augusto. A alma. Alguém
era uma visita estranha. Ficaram ali os três. A alma era a mais inquieta.
Porque veio? É o destino.
Imaginava de outra forma. Todos se surpreendem. Vais ficar por muito tempo? Não
sei, sua alma parece confusa. É...as vezes ela desaparece.
A luz apaga. A porta fecha.
A lua brilha. O vento sopra. O silencio evapora deixando o ar úmido. Estranho.
O coração mantém a calma.
João Augusto está sentado em
uma cadeira. Levanta. Acende a luz. A lua reflete. Volta à mesa. Procura papel
e caneta. Escreve versos. Varias folhas. Horas. A lua silencia. Pássaros
cantam. A alma dorme. João lava o rosto. É segunda-feira. A fechadura é de aço.
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