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segunda-feira, 6 de abril de 2015

Em versos não escreverei, Versos são presos e, quando livres, foram escritos por algemados. Escreverei em prosa, essa é liberta. Não se engane caro leitor, por dentro dessa camisa de força bate livre um coração. As palavras não provém das mãos. Das mãos vem o sangue de Abel. Cristo salvou o mundo com pregos. Eu não, pretensão alguma trago de salvar alguém, só de deixar voar de dentro de mim esses pássaros coloridos.
No dia que tomei medo dos meus fantasmas eles desapareceram, descobri que se alimentavam da minha coragem. Nunca disse nada diante dos meus observadores. Eu conversava com observadores alheios durante o dia. Os meus, alguns eram crianças mortas, mulheres negras, velhas, sempre vestidas de branco. O mais terrível me olhou nos olhos, rosto deformado, escondi-me no escuro, fitei-o novamente, o mesmo olhar.
Sinto-me diferente, pois não tenho medo do medo. Tomei pavor da coragem. Não quero ter armas nem objetos coloridos diante de mim. Esses amigos –desculpe- chamarei assim aqueles observadores. São anti-sociais. Qualquer gole de cerveja eles não me visitavam. Com o tempo percebi que eram apenas tímidos, às vezes se escondiam dentro dos meus sonhos. Eu os expelia com choros pelas manhãs.
Preciso voltar, desde a minha infância mortos e vivos me visitavam, acredito eu, de forma genética. Ficaram mais intensos quando cismei que poderia voar se pulasse do décimo terceiro andar. Nunca pulei. Eles me olharam com olhares frios e compassivos. Um dia, um deles me empurrou pra dentro de um sonho, minha esposa me puxou de novo para a colchão que dormíamos na sala. Revi-o no sábado, olhando-me pela janela do automóvel. Chorei como criança.
Com o passar dos dias eu percebi que meus observadores estavam sendo devorados por mim, eu os degustava calado, e qualquer sorriso de alguém, aumentava minha apetite.
O pior é quando se descobre que por alguns motivos, para algumas pessoas, os observadores são invisíveis. Cometi o erro de compartilhar a presença de meus amigos com outros amigos. Esses primeiros, principalmente os que eu havia devorado, creio que as crianças mortas, começaram a me atormentar por dentro. O fogo do inferno queimava no meu estômago,,,,,
Começaram um diálogo sem fim. Todas as minhas certezas eram confrontadas. Eu dizia “subo”, eles, “desce”, “fico”, “foge”, “grito”, “silêncio”. Com o tempo, lentamente, só distante de tudo, percebi, Tratava-se de uma metamorfose. Não era eu, sou nós. E pra não dizer que os cenários da vida todos mudaram. Nós começamos a estar onde queríamos, mesmo que esse lugar não existisse. Os lugares, conhecidos por você leitor como reais, foram aos poucos evaporando, como gases luminosos no espaço.
Fizemos viagens longas, entramos pela porta sem forma da religião, percorremos as formas geométricas da música. E a paz noturna jogamos em um caminhão de lixo. Nós começamos a ficar acordados, era a melhor maneira de não ver mais a realidade referencial.

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